Clínica psicanalítica e mercado: quando a escuta não cabe na lógica do serviço
Vivemos tempos em que tudo se converte em produto, entrega, equivalência.
Da formação à escuta, do atendimento ao corte, cada gesto do campo clínico parece atravessado pela lógica do serviço. Comumente, nos perguntam: “o que você oferece?”, o que parece colocar a clinica num mercado de soluções rápidas e eficientes para lidar com o mal estar.
Contudo, a clinica sobretudo se for psicanalítica, não se presta a isso. Ela é por definição um ato. Distancia-se das práticas de produtividade e, por se sustentar no vazio, na escuta e na divisão subjetiva não constitui uma promessa de cura. Nesta configuração, o dinheiro como significante é cifra de gozo, operador simbólico e parte do laço.
Quando o pagamento é terceirizado, garantido por um “Outro institucional”, corre-se o risco de neutralizar a perda que funda o desejo do sujeito, além de cristaliza-lo em um “rótulo” diagnóstico, se desimplicar do processo e deslocar o analista de sua função, ou seja, a análise vira suporte terapêutico.
A lógica do mercado exige velocidade, resultados, métricas. No entanto, o inconsciente opera em outro tempo: o da repetição, do tropeço, do corte. Sustentar esse tempo, nos modelos contemporâneos de produtividade, é um gesto clínico e um posicionamento político.
Na Clínica Integração, aprendemos a construir um espaço que não se organiza por essa performance, mas pelo desejo. Um lugar onde o enquadre não é decorativo, mas operador. Onde cada decisão administrativa está a serviço da escuta e não o contrário.
Não se trata de romantizar a precariedade, no sentido de considerar a instabilidade ou o sacrifício virtudes clínicas. Nem de recusar os meios de acesso à análise. Mas de tensionar a função que o dinheiro ocupa em cada laço: o que é pago, quem paga, como paga e o que isso sustenta.
Porque se tudo vira serviço e o analista passa a “entregar” a escuta como produto, quem sustenta o desejo?
E é essa pergunta que me move.
E você, ainda sustenta um espaço ou presta serviços clínicos?