Tempo lógico e tempo de mercado marcam duas formas muito diferentes de lidar com a vida, o trabalho e a escuta. Vivemos a era da pressa. Hoje, a agenda parece sempre apertada, o dia cronometrado e o corpo convocado a responder sem pausa.
É comum escutar frases como: “preciso de um dia de 48 horas”, “não tenho tempo” ou “preciso ver na minha agenda”. Em todas elas, o tempo aparece como falta, dívida ou ameaça.
Nas empresas, o tempo se mede em produtividade, entrega e resultado. Já nos planos de saúde, muitas vezes, ele se mede em minutos autorizados. Além disso, até o cuidado passa a ter prazo: trinta minutos de atenção, doze sessões de escuta, um protocolo a cumprir.
No entanto, existe outro tempo. A psicanálise nos permite pensar o tempo lógico, que não se reduz ao cronômetro nem à quantidade de vezes que a Terra contorna o Sol. Trata-se de uma cadência própria do sujeito, marcada pela palavra, pelo tropeço, pela elaboração e pelo ato.
O tempo da escuta
Na clínica, o tempo não se mede apenas pelo ponteiro do relógio. Antes, mede-se pelo instante em que algo se desloca. Também se revela no momento em que a palavra atravessa um discurso repetitivo e inaugura outra possibilidade de sentido.
Esse é o tempo da fala quando ela encontra o sujeito.
Por isso, uma sessão não se define apenas por sua duração cronológica. Quando a escuta é interrompida somente por um limite administrativo, algo pode se perder. Muitas vezes, perde-se o tempo possível de um ato simbólico: aquele que transforma quem fala em sujeito que se escuta.
Nesse ponto, o tempo lógico e tempo de mercado entram em tensão. O mercado exige previsibilidade. Por outro lado, a clínica exige abertura ao inesperado.
O tempo do mercado
A lógica mercadológica, tanto nas empresas quanto em certas práticas impostas pela saúde suplementar, alimenta a ideia de que tudo pode ser otimizado. Até o sofrimento.
Desse modo, o discurso capitalista promete eliminar a espera, o intervalo da dúvida e o vazio que antecede o desejo. Contudo, a pressa tem um preço. Quando o tempo se reduz à produção, o pensamento se esgota antes da fala.
Nas empresas, isso aparece em decisões impulsivas, burnout, relações empobrecidas e repetições institucionais. No campo clínico, por sua vez, pode aparecer em tratamentos apressados, diagnósticos precipitados e intervenções moldadas por protocolos, formulários e metas.
Em ambos os casos, o sujeito desaparece sob a urgência de um resultado.
Aqui, o artigo toca um ponto decisivo: nem todo tempo ocupado é tempo vivido. Às vezes, a agenda está cheia, mas o sujeito está ausente. Uma tragédia moderna, com notificação no celular.
A ética do tempo
A psicanálise ensina que o tempo é lógico. Portanto, um ato analítico não ocorre apenas porque se passou “tempo suficiente”. Ele acontece quando se produz um encontro entre palavra e verdade.
Esse tempo não se mede apenas em minutos. Ao contrário, ele se precipita. Às vezes, surge depois de longa repetição. Outras vezes, aparece como corte, surpresa ou deslocamento.
Por essa razão, a escuta clínica não cabe inteiramente nas planilhas de eficiência. Também não cabe nas tabelas de produtividade. O tempo da escuta, para ser ético, precisa resistir ao tempo de mercado.
Essa resistência não significa desorganização. Pelo contrário, trata-se de sustentar uma organização que não sacrifique o sujeito em nome da pressa.
Tempo e responsabilidade
Quando uma empresa abre espaço para a escuta, ela cria tempo.
Em primeiro lugar, cria tempo para pensar antes de repetir. Depois, abre espaço para ouvir antes de reagir. Por fim, sustenta a possibilidade de simbolizar antes de adoecer.
Assim, a empresa deixa de operar apenas pela urgência e começa a construir outra relação com seus impasses. A escuta não elimina os conflitos. No entanto, permite que eles deixem de circular apenas como sintoma, ruído ou explosão.
A diferença entre tempo lógico e tempo de mercado é a mesma que existe entre escutar e responder. No primeiro, há espaço para o sujeito. No segundo, muitas vezes, há apenas espaço para o desempenho.
Desse modo, a saúde mental não se mede em minutos. Também não se sustenta apenas por indicadores. Afinal, o tempo lógico é o tempo de um ato.
Perguntas para pensar:
Como a sua empresa mede o tempo?
E o que ela perde quando o tempo se esgota antes da fala?