You are currently viewing Subjetividade das empresas | Como a PJ atravessa a PF

A subjetividade das empresas: como a Pessoa Jurídica atravessa a Pessoa Física?

A subjetividade das empresas aparece nos discursos, nos rituais, nos silêncios e nas repetições que atravessam o ambiente de trabalho. Nos espaços organizacionais, fala-se muito sobre o comportamento das pessoas. Contudo, pouco se escuta sobre aquilo que fala através delas.

Toda empresa, antes de ser apenas um conjunto de processos, é também um discurso.

Ela possui um modo próprio de desejar, repetir, calar e se defender. Além disso, carrega rituais, crenças, fantasias de sucesso e medos de fracasso. Esses elementos formam aquilo que chamo de subjetividade da Pessoa Jurídica, uma instância simbólica que atravessa, orienta e, muitas vezes, captura a Pessoa Física que nela trabalha.

Portanto, quando falamos de saúde mental no trabalho, não basta olhar apenas para o indivíduo. Também é preciso escutar a empresa como produtora de discurso, de laço e de sintoma.

A cultura como discurso

A chamada “cultura organizacional” costuma ser tratada como algo que se pode gerir, medir ou corrigir. No entanto, sob a ótica da psicanálise, cultura não é apenas manual de conduta. É também o modo como algo do inconsciente institucional se manifesta.

Esse inconsciente aparece nos rituais, nos slogans, nas promessas, nos silêncios e nas repetições. Assim, a empresa diz muito mais do que pretende dizer.

Quando uma organização repete, por exemplo, “aqui somos uma família”, ela enuncia mais do que uma frase de pertencimento. Essa expressão pode revelar uma fantasia de fusão. Se não for escutada, essa fantasia pode impedir a diferença, a crítica e a separação necessária entre sujeito e instituição.

Do mesmo modo, empresas que se orgulham excessivamente da “meritocracia” podem produzir um discurso de exclusão travestido de reconhecimento. Afinal, nem todo mérito anunciado reconhece o sujeito. Às vezes, apenas legitima a desigualdade com crachá e café gourmet.

A Pessoa Jurídica que habita a Pessoa Física

O trabalhador chega ao ambiente profissional com sua própria história. No entanto, ele também passa a ser atravessado pela história da empresa.

Com o tempo, pode começar a falar as palavras dela, sonhar seus objetivos e sofrer suas falhas. Desse modo, a empresa se torna uma espécie de Outro simbólico, investido de autoridade, ideal e desejo.

É nesse ponto que o sintoma organizacional se confunde com o sintoma pessoal. A sobrecarga, a ansiedade, o esgotamento e o esvaziamento não pertencem apenas ao indivíduo. Muitas vezes, eles se formam no laço entre sujeito e instituição.

Por isso, pensar a subjetividade das empresas exige ir além da leitura comportamental. Não se trata apenas de perguntar por que o trabalhador adoece. Trata-se também de perguntar que tipo de discurso o convoca, o captura ou o silencia.

Escutar a empresa é escutar o sujeito

Ao propor trazer a empresa para a saúde mental, não se trata de analisar uma estrutura jurídica como se ela fosse uma pessoa. Trata-se, antes, de escutar o discurso que a organização sustenta, repete e transmite.

A empresa também fala.

E, quando fala, atravessa os sujeitos que nela trabalham.

Escutar essa voz institucional é uma forma de ética. Isso permite devolver à organização parte da responsabilidade simbólica por aquilo que ela produz em seus vínculos. Além disso, transforma a escuta em instrumento de pensamento, e não de controle.

Nesse sentido, a clínica pode contribuir com as organizações sem se tornar ferramenta de adaptação cega. Sua função não é apenas ajustar trabalhadores ao sistema. Sua função é abrir espaço para que o mal-estar encontre palavra, leitura e consequência.

Entre o contrato e o pacto

Toda relação de trabalho envolve, ao mesmo tempo, um contrato e um pacto.

O contrato regula trocas, funções, horários e responsabilidades. Já o pacto, muitas vezes silencioso, funda o laço. Ele diz respeito ao que cada um entrega, ao que espera receber e ao lugar que ocupa no desejo da organização.

Quando esse pacto se rompe, o sofrimento aparece. Isso pode ocorrer pelo excesso, pela desumanização, pela incoerência entre discurso e prática ou pelo cinismo institucional. Nesse ponto, o sujeito não adoece sozinho. Ele adoece em uma trama.

Por essa razão, escutar a empresa é sustentar a possibilidade de um novo pacto. Um laço em que a fala substitui o automatismo. Um espaço em que o pensamento pode ocupar o lugar do sintoma.

Por fim

Em tempos de métricas, indicadores e respostas prontas, propor escuta é um ato político. A escuta permite que a empresa se veja, se pense e, talvez, se transforme.

Porque a empresa também fala.

E, quando fala, atravessa os sujeitos que nela trabalham.


Compartilhar: