“O que você quer ser quando crescer?”: trabalho, sujeito e a construção de um lugar
Trabalho e subjetividade se articulam desde muito cedo na vida de um sujeito. Talvez isso apareça, de forma simples e ao mesmo tempo profunda, em uma pergunta que muitos de nós já ouvimos na infância: “o que você quer ser quando crescer?”
À primeira vista, parece uma pergunta lúdica. No entanto, ela carrega uma inscrição que ultrapassa o campo da escolha profissional. Quando alguém pergunta o que uma criança quer ser, não convoca apenas uma decisão futura. Também introduz uma questão sobre o lugar que esse sujeito poderá ocupar no laço social, no campo do reconhecimento e na relação com o Outro.
Sem dúvida, essa pergunta aponta para um lugar a partir do qual o sujeito poderá existir, responder e encontrar reconhecimento.
Nesse sentido, o trabalho não se reduz a uma atividade produtiva. Ele opera como um dos principais organizadores da vida psíquica e social. Por meio dele, o sujeito pode se inserir no mundo, construir vínculos, sustentar uma identidade e, muitas vezes, tentar responder à pergunta sobre quem é.
Isso aparece de forma evidente quando alguém se apresenta. Com frequência, escutamos: “me chamo fulano, sou gerente da empresa tal” ou “sou analista na organização x”. Esses dados não dizem exatamente quem é a pessoa. Antes, indicam o lugar que ela ocupa dentro de uma estrutura.
O trabalho como lugar de inscrição
Por isso, há um ponto que merece atenção. A possibilidade de responder à pergunta “o que você quer ser?” depende de condições que antecedem o próprio ingresso no mundo do trabalho.
O sujeito não se constitui de forma isolada. Desde o nascimento, diferentes organizadores sociais o atravessam: família, escola, cultura, condições materiais e condições simbólicas de existência. Cada um desses campos introduz modos de relação com a autoridade, com a regra, com o reconhecimento e com a própria possibilidade de escolha.
Assim, quando chega ao trabalho, o sujeito já carrega uma história. Também carrega uma forma de se implicar, de responder às exigências e de ocupar um lugar.
A empresa, por sua vez, passa a inseri-lo em uma lógica própria. Desse encontro entre uma história já inscrita e uma organização que demanda resultado, algo se produz. Às vezes, o trabalho produz laço, construção e reconhecimento. Em outras situações, produz apagamento, repetição e sofrimento.
Nem tudo se explica por desempenho
No contexto organizacional, vemos que diferentes sujeitos respondem de maneiras distintas diante da mesma função. Alguns se implicam, sustentam, organizam e transformam o trabalho em espaço de construção. Outros permanecem à margem, executam sem se apropriar ou ficam capturados por exigências externas que não lhes fazem sentido.
Essas diferenças não se explicam apenas por competência ou desempenho. Elas dizem respeito à posição que cada sujeito ocupa diante do trabalho, da autoridade, do reconhecimento e do desejo.
No entanto, ao longo do tempo, essa complexidade tende a desaparecer. A pergunta “o que você quer ser?” vai dando lugar a outras:
“o que você entrega?”
“qual é o seu desempenho?”
“quanto você produz?”
Nesse deslocamento, algo se perde. O trabalho, que poderia operar como possibilidade de inscrição do sujeito, passa a responder quase exclusivamente a critérios de produtividade e performance.
E isso não acontece sem efeitos.
Quando a função apaga o sujeito
Quando a função passa a definir o sujeito, algo de sua dimensão subjetiva fica em risco. A avaliação substitui o reconhecimento. A execução ocupa o lugar da implicação. Além disso, a cobrança por resultado silencia a pergunta sobre o desejo.
Nesse ponto, a saúde mental no trabalho deixa de ocupar um lugar periférico. Ela se impõe como necessidade ética, clínica e institucional.
Afinal, quando o trabalho deixa de operar como organizador e passa a funcionar como fonte contínua de exigência, surge uma divisão importante. Para a empresa, pode haver resultado. Para o sujeito, porém, pode haver cansaço, esvaziamento e sofrimento.
Aqui, a lógica produtiva mostra seu limite. Ela pode medir entrega, mas não mede o custo subjetivo de sustentar um lugar onde já não há reconhecimento. O crachá identifica, mas nem sempre nomeia. Pequena diferença; enorme consequência.
Riscos psicossociais e estrutura organizacional
A recente formalização dos riscos psicossociais no trabalho, prevista na NR-1, aponta para esse cenário. No entanto, as empresas correm o risco de tratar essa questão apenas como mais um item de gestão.
Mapear riscos, implementar ações e cumprir exigências são passos fundamentais. Contudo, não bastam.
Se o trabalho é um organizador social, a saúde mental não pode ficar reduzida a um problema individual do colaborador. Ela exige uma leitura da própria estrutura organizacional.
Nesse sentido, a empresa precisa perguntar:
De que modo distribui o trabalho?
Quais relações sustenta em sua rotina?
Que lugar oferece ao sujeito?
Quais formas de reconhecimento circulam?
Que silêncios mantêm determinadas exigências?
Essas perguntas deslocam a saúde mental do campo da solução rápida para o campo da responsabilidade institucional.
Recolocar o sujeito em cena
Pensar trabalho e subjetividade exige reconhecer que o sujeito chega à organização com uma história. Ele se posiciona, responde, recua, se implica ou resiste, ainda que nem sempre saiba por quê.
Por isso, a empresa não recebe apenas competências técnicas. Recebe sujeitos atravessados por marcas, expectativas, fantasias, identificações e modos singulares de responder ao Outro.
Retomar, ainda que de forma deslocada, a pergunta “o que você quer ser?” talvez permita recolocar o sujeito em cena. Não para romantizar o trabalho, nem para transformá-lo em vocação obrigatória. Mas para escutar o que, dessa pergunta, ainda insiste no modo como cada um trabalha, sofre, deseja e tenta construir um lugar.
No fim, a questão não se limita ao que alguém quer ser quando crescer.
Ela também exige outra pergunta: que lugar o trabalho ainda permite ao sujeito ocupar?