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A escuta como acontecimento ético sustenta a clínica psicanalítica para além da lógica do serviço, do produto e da entrega. Vivemos um tempo em que a lógica de mercado deixou de ser apenas uma engrenagem econômica. Além disso, ela se tornou também uma gramática subjetiva.

Entregas, resultados, metas e produtividade circulam no mundo corporativo. No entanto, essas palavras também atravessam os vínculos, os afetos e, não por acaso, os consultórios de psicologia e psicanálise.

Nesse cenário, a escuta corre o risco de virar produto, o acolhimento se transformar em experiência vendável e, o sintoma passa a ser tratado como dado a ser normalizado. Assim, a clínica corre o risco de se tornar apenas mais um serviço.

Contudo, a clínica psicanalítica não se sustenta nessa lógica. Tampouco funciona por equivalência. A psicanálise opera no campo do ato, e não do comércio. Por isso, o ato não se repete à maneira de uma fórmula.

Lacan nos ensina que o sujeito do inconsciente não coincide com o sujeito racional, performático ou eficiente. Ao contrário, ele tropeça, repete e escapa. Justamente nesse tropeço, a análise encontra seu ponto de apoio.

Por essa razão, a clínica exige tempo. Tempo para que o desejo se anuncie, ainda que disfarçado. Também exige tempo para que a transferência se instale. Além disso, requer tempo para que o gozo apareça como aquilo que excede toda tentativa de cálculo.

Não é possível otimizar esse tempo. Da mesma forma, não é possível convertê-lo em um pacote de dez sessões com garantia de melhora. A clínica, quando orientada pela psicanálise, não trabalha com promessas rápidas. Em vez disso, trabalha com a palavra, o intervalo e com aquilo que insiste no sujeito.

O que o dinheiro revela na análise

Freud já advertia, em 1913, que o dinheiro na análise não é indiferente. Ele carrega potentes fatores libidinais. Posteriormente, Lacan avança nessa leitura ao situar o dinheiro como cifra de gozo.

Desse modo, o pagamento de uma sessão não representa apenas uma transação. Ele também funciona como gesto de implicação. Nesse ponto, o sujeito se compromete, muitas vezes, mais do que imagina.

Por isso, quando o atendimento psicológico se transforma em serviço terceirizado, algo se desloca. Plataformas, convênios e tabelas podem ampliar o acesso, é verdade. No entanto, também podem neutralizar algo da potência do ato clínico.

Nessa operação, o dinheiro vira contrato. O desejo, orçamento. E a escuta, infelizmente, pode virar mercadoria. Eis o ponto delicado: nem todo acesso sustenta uma experiência analítica. Às vezes, apenas organiza uma prestação de serviço com verniz terapêutico.

Sustentar a clínica como lugar de subversão

Sustentar uma clínica hoje exige resistência. Antes de tudo, exige resistir à tentação de operar pela equivalência. Depois, exige recusar o apelo da performance terapêutica. Por fim, exige interrogar a ideia de que a escuta pode ser medida como produtividade.

Além disso, sustentar a clínica exige uma aposta. Há algo da palavra que não se domestica. Há sujeitos que não precisam ser ajustados. Ao contrário, precisam ser escutados. O sofrimento não pede somente protocolo. Também pede lugar.

Esse lugar é a clínica. Mas não qualquer clínica.

Trata-se de uma clínica que abre um furo no discurso. Ao mesmo tempo, cria intervalo no excesso. Dessa maneira, sustenta o ato simbólico diante de um tempo que quer transformar tudo em consumo.

É essa clínica que sigo construindo na Clínica Integração desde 2002. O projeto reúne profissionais comprometidos com a ética da escuta, com o manejo do desejo e com a responsabilidade diante do sofrimento psíquico.

Portanto, quando tudo vira serviço, sustentar a escuta como acontecimento ético ainda é um gesto político. E ético.

Porque, no fim, a pergunta permanece: quando a escuta vira produto, quem ainda sustenta o desejo?

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