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E se não levássemos a saúde mental para a empresa, mas trouxéssemos a empresa para a saúde mental?

Saúde mental nas empresas tornou-se uma pauta urgente. Nos últimos anos, programas corporativos ganharam força, especialmente diante das novas exigências relacionadas à gestão de riscos psicossociais no trabalho.

A NR-1, por exemplo, convoca as empresas a olharem para a saúde ocupacional de forma mais ampla. A intenção é importante. No entanto, o risco também aparece com clareza: transformar o sofrimento psíquico em planilhas, relatórios, metas de engajamento e indicadores de desempenho.

Por isso, proponho outra pergunta: o que aconteceria se invertêssemos a lógica?

Em vez de levar a clínica para dentro das empresas como mais um serviço, poderíamos convidar as organizações a entrarem no campo da saúde mental. Não pela via da produtividade, mas pela via da escuta, da palavra e da responsabilidade diante do mal-estar.

À l’envers: a inversão necessária

Jacques Lacan nos lembra, em O Avesso da Psicanálise, que toda estrutura pode ser pensada pelo avesso, à l’envers. No campo da saúde mental nas empresas, essa inversão se torna fundamental.

A clínica não deve se moldar à produtividade. Ao contrário, a empresa precisa se confrontar com aquilo que emerge quando se abre espaço para a fala.

Esse ponto muda tudo.

A clínica não oferece apenas um “serviço de bem-estar”. Ela sustenta um laço simbólico no qual o sujeito pode se implicar em seu desejo, em seus impasses e em suas formas de sofrimento. Essa operação não combina com o consumo rápido de soluções emocionais.

A empresa, portanto, precisa sair da posição de quem apenas contrata uma intervenção. Ela precisa se perguntar o que, em sua cultura, em sua gestão e em seus modos de funcionamento, participa da produção de adoecimento.

O que significa trazer a empresa para a saúde mental?

Trazer a empresa para a saúde mental não significa instalar uma palestra motivacional, aplicar um formulário e encerrar o assunto. Isso seria apenas pintar de sensível uma parede rachada.

Significa, antes de tudo, criar espaços de fala que não sejam pautados apenas por indicadores de performance. Também significa escutar o trabalhador para além de diagnósticos, rótulos prontos ou categorias administrativas.

Além disso, essa perspectiva exige reconhecer que saúde mental não é benefício corporativo. Saúde mental é uma ética de relação com a subjetividade.

Nesse sentido, a empresa precisa considerar o modo como sua própria estrutura atravessa quem nela trabalha. A Pessoa Jurídica não é neutra. Ela produz discursos, exigências, ideais, silêncios e formas de vínculo. Esses elementos incidem sobre a Pessoa Física que sustenta, no corpo e na palavra, os efeitos do trabalho.

Portanto, a organização não “compra” saúde mental. Ela se deixa interpelar por ela.

E isso exige coragem.

E os ganhos para a empresa?

Quando falamos em saúde mental nas empresas, muitos gestores perguntam rapidamente pelos resultados. A pergunta é legítima, mas precisa ser deslocada.

Não se trata apenas de produtividade imediata. Trata-se de sustentabilidade subjetiva, institucional e relacional.

Uma empresa que se dispõe a se implicar nesse processo pode construir vínculos mais sólidos. Também pode produzir ambientes menos adoecidos, relações mais responsáveis e uma cultura mais capaz de reconhecer seus próprios limites.

Além disso, quando a empresa escuta seus pontos de tensão, ela deixa de tratar o sofrimento como problema individual isolado. Assim, passa a reconhecer que certos sintomas dizem algo sobre o modo como o trabalho se organiza.

Esse é o ponto decisivo: nem todo sofrimento nasce apenas no indivíduo. Muitas vezes, ele denuncia uma engrenagem institucional que precisa ser lida.

Está a empresa disposta a se colocar em análise?

O convite que deixo é simples, mas desafiador.

Em vez de perguntar apenas “como levar saúde mental à empresa?”, talvez devamos perguntar: como levar a empresa à saúde mental?

Essa inversão desloca a organização do lugar de consumidora de soluções e a convoca a uma posição mais responsável. Afinal, cuidar da saúde mental não é apenas oferecer recursos. É também interrogar práticas, discursos, metas, excessos e modos de gestão.

Por isso, convido líderes, gestores e profissionais de RH a refletirem: sua empresa está disposta a se implicar de verdade na escuta da saúde mental, sem reduzi-la a um contrato de serviço?

Porque, quando uma empresa aceita escutar, ela não apenas cumpre uma norma. Ela começa a construir outra forma de laço.

Para saber mais acesse:

https://www.gov.br/trabalho-e-emprego/pt-br/assuntos/inspecao-do-trabalho/seguranca-e-saude-no-trabalho/ctpp-nrs/normas-regulamentadoras-nrs

https://site.cfp.org.br/

https://www.gov.br/fundacentro/pt-br/comunicacao/noticias/noticias/2026/abril/saude-mental-no-trabalho-avanca-como-desafio-no-brasil

https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/mental-health-at-work

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